segunda-feira, setembro 29, 2008

Sem direito à devolução

O povo não tem idéia do poder e da responsabilidade que possui, o poder de escolher o gestor de sua cidade por um período de quatro anos. E esta decisão não pode ser tomada de maneira irresponsável. Deixar-se corromper pela compra de voto é crime do ponto de vista legal, moral e religioso.

Na sociedade capitalista, quase tudo é colocado à venda, as relações econômicas são baseadas na compra e na venda de produtos e de bens de consumo. E deixando de lado as discussões sociológicas sobre o sistema e seus impactos maléficos, nisto não há crime. Agora transferir a lógica do mercado para comprar consciências é o grau máximo da corrupção a que um político pode chegar.

Trata-se de uma abordagem humilhante que deveria ser rechaçada pelo cidadão que não compactua com práticas perniciosas à democracia. Não há dinheiro que pague o valor de um voto, menos ainda as migalhas oferecidas às escondidas em bairros carentes responsáveis pela manutenção de uma indústria da miséria.

Quem compra voto comete crime de atentado contra a dignidade humana, e quem aceita, não tem direito à devolução do produto.

sábado, setembro 13, 2008

É melhor prevenir!

A juíza federal Cristina Maria Costa Garcez, membro do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) e presidente da Comissão encarregada da geração de mídia, declarou hoje pela manhã que é contrária a convocação de tropas federais para as eleições municipais. O posicionamento é oposto ao do arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pagotto, e do bispo de Campina Grande Dom Jaime Vieira Rocha, ambos bastante conhecedores das virtudes e fraquezas do seu rebanho.

A convocação de tropas federais para garantia da ordem e da tranqüilidade da população na véspera e no dia das eleições municipais em Campina Grande foi defendida ontem pelo Bispo Diocesano, dom Jaime Vieira Rocha.

Segundo ele a necessidade de convocação de tropas federais se justifica pelo fato de, costumeiramente, as campanhas eleitorais em Campina Grande serem radicalizadas. “As eleições são transformadas em praça de guerra, o que representa uma vergonha e um atraso. O que deveria ser uma demonstração de cidadania se transforma em pretexto para atritos físicos e verbais; por isso, as tropas federais são necessárias para o bem de todos”, justificou o bispo campinense

É bom lembrar que quando estamos lidando com paixões suscitadas pela política, e diante de apelos passionais, todo cuidado é pouco. Na condição de pastores que conduzem o rebanho no caminho do bem, os religiosos têm autoridade para opinar e suas impressões precisam levadas em consideração.

terça-feira, setembro 09, 2008

Sem final feliz

Às margens de uma extensa floresta existia – há muito tempo – uma cabana pobre, na qual morava um lenhador com sua segunda esposa e seus dois filhinhos, nascidos do primeiro casamento. O garoto chamava-se João e a menina, Maria. Na casa do lenhador não havia comida para todos e a madrasta convenceu o marido a abandonar as crianças na mata.

Sozinhos, os irmãos cairam nas garras de uma bruxa que tinha como objetivo comê-los. Um dia quando ela preparava o forno, Maria a empurrou e rapidamente trancou a porta do forno deixando que a bruxa morresse queimada. Ao voltarem para casa, encontraram o pai triste e arrependido. A madrasta havia morrido de fome e o pai estava desesperado com o que fez com os filhos. Quando viu João e Maria, o pai correu pra abraçá-los e os três foram felizes para sempre.

Na última sexta-feira, o pai e a madrasta de dois garotos de 12 e 13 anos, mataram, esquartejaram e atearam fogo nos filhos. Depois, jogaram pedaços dos corpos em sacos de lixo. Eliane Aparecida Rodrigues e João Alexandre Rodrigues já tinham sido denunciados por negligência e maus-tratos contra desde 2005.

O crime ocorreu em Ribeirão Pires (SP), na noite de sexta, horas depois das crianças terem sido levadas à delegacia por um guarda-civil que as encontrou abandonadas na rua na noite anterior. Os meninos disseram ter sido expulsos de casa pela madrasta.

O Conselho Tutelar foi acionado, mas as crianças foram levadas para casa.Por causa das denúncias contra os pais, de 2007 até maio deste ano, os irmãos ficaram em um abrigo, mas foram devolvidas à família. Uma psicóloga teria assinado um laudo alegando que as crianças inventavam as histórias. Desde este tempo, os garotos pediam socorro.

O relato lembra o conto de João e Maria, mas diferente daquele, trata-se de uma história real, com personagens de verdade e que não teve um final feliz.

quinta-feira, setembro 04, 2008

A voz da democracia

A inventividade popular não tem limites. Em lugar de infringir leis, o povo encontra formas de driblar estas imposições de maneira criativa e “legal”. Os maiores exemplos vêm sendo observados nas eleições de Campina Grande. Com a proibição das carreatas, as pessoas aderiram maciçamente à participação nas passeatas. Nunca se viu tantas e com tão numerosa quantidade de gente.

Mais recentemente, os fogos de artifício também foram proibidos. E novamente, a força do povo criou uma maneira de expressar sua vontade: instaurou a modalidade do apitaço. Nos mais recentes eventos políticos, os apitos foram usados por adolescentes, adultos e idosos.

Diante da restrição de sonorização mecânica em locais como igrejas, escolas e hospitais – determinação mais do que justa – a voz do povo novamente falou mais alto. Após se distanciar destes pontos, os participante dos eventos políticos entoam as músicas de campanha no gogó, com potência suficiente para animar o evento e não incomodar o sossego dos prédios públicos.

Ocorre que em alguns estabelecimentos, empregadores e empregados acabam sucumbindo à campanha silenciosa, mas não menos empolgante, como são as paixões suscitadas pela política. E desta forma, nasce em Campina outra forma de expressar suas convicções ideológicas: a chuva de papel picado.

No coro popular, pessoas de todas as idades e classes sociais lançam mão de táticas, aproveitando racionalmente as ocasiões para objetivação dos desejos e da necessidade de expressão, renovando e fortalecendo o verdadeiro sentido da democracia.

segunda-feira, agosto 18, 2008

O certo e o errado

A Justiça Eleitoral multou em R$ 30 mil a Coligação Por Amor a Campina por reproduzir no site do candidato da chapa majoritária, Rômulo Gouveia, uma matéria veiculada no portal de notícias wscom intitulada: “Começaram cedo: o wscom denunciou apreensão de cestas básicas e bandeiras vermelhas”.

Na sentença, divulgada ontem, o juiz da Propaganda de Mídia, Cláudio Pinto Lopes, que disse que o princípio de eqüidade não foi seguido, também determinou a retirada da matéria do site e no caso da multa, ela deve ser revertida ao Fundo Partidário. Através de uma busca no site, ontem à tarde, a notícia já não foi localizada.

O juiz também publicou sentença ontem determinando o arquivamento de ações movidas pela Coligação Por Amor a Campina contra a Coligação Amor Sincero por Campina, por conta de cinco comunidades no site de relacionamento Orkut.

Nas comunidades “Apoio meu síndico Veneziano”, “Meu prefeito é moral”, “Campina quer Veneziano de novo”, “Força Jovem PMDB” e “Eu votei em Veneziano”, de acordo com o juiz, “a coligação não tem qualquer responsabilidade na elaboração e manutenção”.

O Orkut, embora não seja regulamentado pela legislação eleitoral, segue as normas da radiodifusão e televisão, e desde que não atente contra a honra, imagem ou moral e dignidade do candidato, partido ou coligação, não poderá ser cerceada, sob pena de atentar contra a liberdade de expressão, disse o juiz

quarta-feira, julho 30, 2008

Aprendendo a lição


A programação do 33ª edição do Festival de Inverno de Campina Grande deste ano está bem enxuta. Número reduzido de atrações e locais de apresentação, mas pela primeira vez, após uns cinco anos de instabilidade, o crème de la crème dos espetáculos de teatro, dança e música da atualidade.

Em 10 dias de evento, passam pelo Teatro Severino Cabral, Sesc-Centro e Praça da Bandeira, Naná Vasconcelos, Virgínia Rodrigues, as companhias Urbana e Quartier Latin, La Lune Vagabonde, Denise Stoklos, Carroça de Mamulengos, além de Cordel do Fogo Encantado, O Teatro Mágico, Mundo Livre S/A e outros.

À exceção do Teatro Mágico, as demais atrações não têm exatamente o perfil típico da cultura de massa, e por isto mesmo, oferecem a oportunidade do grande público conhecer outras expressões artísticas, além do trivial. Atrações de todo o Brasil e até do exterior, com o devido espaço para a apresentação de artistas paraibanos.

Deixando de lado, a ladainha anual de falta de recursos e complexo de superioridade em relação ao Festival de Garanhuns, o evento começa a encontrar o caminho do essencial e da maturidade, algo como o que o zen-budismo classifica de “caminho do meio” ou segundo as palavras da diretora do Festival de Inverno, Eneida Agra, “uma lição difícil de ser apagada”.

sexta-feira, julho 11, 2008

Quem é o pai?

A Mesa Diretora do Senado decidiu criar 97 cargos de assessor parlamentar, sendo 81 para cada senador e 16 para cada liderança de partido na Casa. A criação dos cargos com salários de R$ 9.970, e previsão das contratações a partir de agosto, não é segundo o presidente do Senado, Garibaldi Alves, prioritária. O político rio-grande-nortense disse que ter sido contrário à decisão, mas ficou falando sozinho.

Com a péssima repercussão da medida na mídia, senadores alegaram terem atendido a um pedido dos líderes, mas precisamente do senador Efraim Morais (DEM-PB). Adotando esta postura, os integrantes da mesa “lavaram as mãos” creditando a “honra e glória” do projeto ao senador paraibano.

De acordo com eles, há cerca de três meses, Efraim Morais pediu que assinassem o projeto, e que eles o atenderam sem sequer dar ao trabalho de saber do que se tratava. Independente de o projeto ter aval ou não dos líderes e inspiração de Morais, o certo é que os demais senadores não são menos culpados na tomada de uma decisão extremamente inoportuna para o contexto econômico atual.

Todos eles indistintamente passarão a contar com 12 cargos comissionados em seus gabinetes. Considerando que cada cargo pode ser dividido para até quatro funcionários, o total de servidores sem concurso em cada gabinete pode chegar a 48 pessoas. Neste momento, os ingênuos senadores que assinaram o projeto de Efraim Morais sem conhecer o seu teor, farão questão se serem os pais da matéria.

quinta-feira, julho 10, 2008

Realidade Virtual



A desgraça que se abateu sobre a família do pequeno João Roberto Amorim Soares, metralhado quando vinha de carro com a mãe e o irmão de uma festinha infantil, infelizmente não foi a única no Rio de Janeiro. Chama mais atenção pelas circunstâncias em que aconteceu, e pela idade da vítima, mas é mais uma no prontuário policial carioca. Há dois anos, o entregador de pizza Bruno Ribeiro de Macedo, de 19 anos, foi morto por um PM perto da Favela do Jacarezinho, no subúrbio do Rio quando buscava ajuda para o pai.

O rapaz tinha saído de casa às pressas para buscar socorro para o pai, que passava mal. Sem atendimento médico na comunidade, o rapaz saiu da favela de moto, em companhia de um colega, para procurar um táxi na rua mais próxima. Quando os policiais viram os dois rapazes abordando o motorista, deduziram se tratar de um assalto e atingiram Bruno no rosto.

O pai de Bruno, João Rodrigues de Macedo, de 77 anos, acabou sendo socorrido por uma Kombi e foi levado para o Hospital Salgado Filho. Ele morreu no caminho, sem saber o que tinha acontecido com o filho. O policial admitiu que atirou por engano e foi afastado do patrulhamento.

Em recente matéria publicada no Estadão, uma pesquisa revela que a polícia Rio de Janeiro é a que mais mata no mundo desde de 2003, ano em que 1.195 pessoas morreram em conseqüência de ações policiais. A cada cinco homicídios registrados na cidade, um é de autoria da polícia. Nem mesmo a polícia sul-africana, tida como a violenta, faz páreo para os policiais fluminenses. Na África do Sul, em 2003 as mortes decorrentes de confrontos deram o total de 681.

No caso do garotinho João Roberto, os agentes envolvidos na operação que culminou com sua morte ainda insistem em dizer que trocavam tiros com bandidos, desafiando a inteligência da família e tornando o fato ainda mais revoltante.

Para tentar amenizar a imagem de uma Polícia conhecida por primeiro e perguntar depois , o Estado anunciou a realização de um curso de capacitação para os policiais que trabalham nas ruas. O curso que deveria ser um prolongamento do treinamento oferecido durante a formação de soldados, será ministrado através da Internet. É isso mesmo, pasmem! Um curso à distância para policiais que vivem a realidade das ruas cariocas.

Com uma qualificação dessas, as autoridades do Rio dão um recado: - Tranquem-se em suas casas, estudem, divirtam-se, amem e vivam pela rede mundial de computadores, tal como os policiais vão fazer para se reciclar. Fora realidade virtual, salve-se que puder!

sexta-feira, junho 20, 2008

Prisões da miséria ou "Os muros e as grades"


Depois do escândalo de corrupção trazido à tona pela Operação Albergue, desencadeada pela Polícia Federal no Presídio do Serrotão, o secretário de Administração Penal do Estado, Pedro Adelson anunciou a construção de duas casas albergues em Campina Grande. As unidades deverão alojar os 170 apenados em regime semi-aberto ajudando a reduzir em 10% a superlotação carcerária.

Em nível nacional fala-se em presídios para jovens e na ampliação do número de penitenciárias de segurança máxima. Investe-se muito em prisão, nos “muros e nas grades “que como diz a letra dos Engenheiros do Hawaii “...nos protegem de nosso próprio mal...”.

E tudo isso para quê, se na realidade a construção de presídios serve apenas para confirmar a falência social e moral da sociedade. No Estado penal, focado exclusivamente na repressão ao crime – os troféus da segurança pública são as prisões. Quando mais bandidos forem capturados, mais eficiente será a sua polícia, e agradecidos os cidadãos.

A lógica parece simples e inquestionável, mas será tal como se apresenta?

Defender a utilização de estratégias coercitivas contra quaisquer delito como forma de combater a violência tem como objetivo único, reforçar a repressão na ausência de uma política pública de caráter preventivo e participante.

Antes de tudo precisamos desconstruir discursos equivocados que têm como nascedouro
o projeto neoliberal, identificando na tolerância - a origem da violência. Em consonância com este pensamento estão pessoas que acreditam estarem seguras por trás de muros e grades, mas que não passam de prisioneiras.

A diferença entre um “cidadão de bem” e um condenado que cumpre pena em uma jaula (oops) e uma cela, é mínima. Ambos estão acuados. As casas de detenção, presídios, penitenciárias ou como se queiram chamar os “muros e as grandes” do Estado penal, nunca foram capazes de conter a violência e muito menos de recuperar quem quer que seja.

O aparato repressor é burro, rejeita as principais causas da violência urbana e criminaliza a pobreza. Os presídios são construídos para esconder os efeitos de uma política sócio-econômica excludente, para nos manter afastados momentaneamente “do nosso próprio mal”. Não passam de depósitos temporários de pessoas consideradas “impróprias” para o convívio social, consideradas pelo Estado penal como perigosas e inadequadas, tal qual o lixo que escondem debaixo do tapete.

quinta-feira, junho 12, 2008

Tradição do atraso

Para um Estado com forte tradição rural, a proibição das fogueiras caiu como uma bomba. O argumento usado por quem classifica a fogueira como “símbolo maior da festa” o termo “tradição” é rapidamente invocado para justificar um costume caro aos nordestinos, que aproveitam as noites do mês de junho para reunir os familiares e amigos.

São remanescentes de uma época em que não havia assalto nas portas de residências e as fogueiras propiciavam o bate-papo entre vizinhos - sociabilidades que a violência urbana inibiu. Vivemos um tempo bem diferente da época em que na antiga Judéia, as primas Isabel e Maria, combinaram que a primeira a ganhar bebê anunciaria a novidade, acendendo uma fogueira em frente à própria casa.

Isabel cumpriu a promessa quando seu filho João Batista no dia 24 de junho há vários séculos. Se fosse nossa contemporânea poderia ter usado outro meio de comunicação. Inegavelmente a simbologia da fogueira é mais charmosa que qualquer outra e segundo a etnologia é mais antiga ainda que a atribuída a era Cristã. Entre os povos primitivos era comum a prática de acender fogueiras nos solstícios de verão e inverno, em homenagem ao deus-sol.

A Igreja Católica já desobrigou seus fiéis a este tipo de ritual, derrubando qualquer tipo de justificativa em prol da tradição religiosa. Se a tradição relatada for a cultural, a situação é ainda mais estapafúrdia, considerando que os movimentos culturais não são fixos e se renovam incessantemente.

Acender fogueira em áreas urbanas pressupõe problemas que infelizmente são reais e atuais. Neste período aumenta em mais de 50% o número de internamentos de pessoas alérgicas afetadas pela fumaça das fogueiras, além de queimaduras, principalmente entre as crianças. O costume também pressupõe a degradação ambiental e a ameaça a decolagem de aeronaves e outros inconvenientes que nenhuma tradição tem o poder de justificar.

terça-feira, maio 13, 2008

Mudar, mas não mudar

A presidente nacional do PSOL, ex-senadora Heloísa Helena participa hoje da Semana de Enfermagem promovida pelo Hospital Universitário Alcides Carneiro (HUAC) da UFCG. Heloísa fará uma palestra sobre Saúde no Brasil, às 19h30, no encerramento do evento. Antes que se questione a presença de HH no evento, uma informação necessária: ela é enfermeira, profissão que talvez tenha sido escolhida por causa sua história de vida.

Natural do interior de Alagoas, a ex-senadora foi uma criança pobre e de saúde frágil. Mesmo tentando fugir de psicologismos, é inevitável pensar que foi essa biografia da infância que também a levou à política.

HH é símbolo da luta contra as injustiças sociais e uma das parlamentares mais combativas que o país já teve. Enfrentou o PT, partido que ajudou a fundar, criando o PSOL, sigla pela qual se candidatou à presidência da república.

Com seu estilo radical, suas blusinhas brancas e os cabelos pretos amarrados em rabo-de-cavalo, Heloísa Helena é uma das figuras públicas mais polêmicas da atualidade. Alvo de críticas da esquerda e da direita, a ex-senadora talvez peque por excesso de sinceridade e precise de uma repaginada no visual.

Alguém precisa convencer HH que o mundo da política é movido pelas aparências e que não basta bons propósitos para seduzir as massas. Que ela pode se moldar a alguns caprichos, por mais supérfluos que sejam para conseguir colocar em prática seus projetos, mas que não precisa mudar suas convicções ideológicas.

Pai e filho

A semana passada, o prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rego convidou o pai para integrar sua equipe na administração municipal. O brilhante jurista Vital do Rego andou distante dos filhos, chegando a ocupar a linha de frente o secretariado do governador Cássio Cunha Lima, adversário político do filho.

Mas o sentimento paterno falou mais alto e depois de pensar durante cerca de uma semana na proposta, o pai aceitou assumir o cargo de secretário de Assuntos Jurídicos da Prefeitura. Vital do Rêgo só não vai assumir a pasta imediatamente, porque já havia agendado participação em três júris este mês, mas assim que tiver cumprido os compromissos, marcará a data da posse.

Nas palavras do filho-prefeito "o ingresso do respeitado tribuno aos quadros da Prefeitura, é motivo de alegria e orgulho, porque o jurista honra e enriquece qualquer administração pública. Além da notável experiência no campo jurídico, é reconhecidamente um exemplo de homem público e seguramente será um importante colaborador para a administração municipal".

Vital do Rego foi deputado federal três vezes, duas na década de 1960 e uma nos anos 1990. Na Câmara Federal, o tribuno foi procurador e corregedor no último mandato e escolhido como um dos cinco melhores oradores, dentre centenas de deputados de todo o Brasil.

Representante de uma elite política formada por figuras como Alcides Carneiro e Pedro Gondim, o pai carrega o signo do brilhantismo e da integridade em um momento de crise ética e política sem precedentes. Agora, ao lado do filho fortalecerá os laços familiares e indiscutivelmente, a administração municipal.

sexta-feira, maio 09, 2008

Terreno minado

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) restringiu ainda mais o uso da Internet como instrumento de propaganda eleitoral. Qualquer divulgação só poderá ser feita em uma página criada pelo candidato especificamente criada para este fim e que poderá ficar no ar entre 6 de julho e a antevéspera da eleição. Os candidatos podem optar por usar a terminação “can.br”.

O uso abusivo da rede, assim como dos meios de comunicação poderá implicar na cassação do registro do candidato. Com limites à propaganda na internet, ministros do TSE buscam coibir a utilização indevida de meios de comunicação e abusos com publicidade favorável a candidatos.

O que não se consegue entender é como Orkut, My Space e outros territórios livres da Internet poderão ser limitados. Espaços, aliás, bastante utilizados pelos candidatos menos abonados financeiramente e na maioria das vezes criados por eleitores, como expressão espontânea.

De que forma os candidatos irão se proteger dos adversários mal-intencionados que poderão criar perfis em nome deles? Porque segundo a medida, mesmo quem alegar que a publicidade foi feita por outra pessoa poderá ser punido, a não ser que prove que a intenção era prejudicá-lo.

O TSE ainda julgará consulta sobre a possibilidade do uso de banners, e-mails, blogs e chats, mas um parecer técnico do tribunal recomenda a proibição de todas elas. Com o cerco fechado para espaços livres e democráticos, o terreno está minado.

quarta-feira, maio 07, 2008

A inconsistência da oposição

Em toda história política mundial, a oposição sempre se beneficiou por estar na posição de ataque, de fiscal, denunciando os desmandos do establishment. Seu papel sempre foi fundamental para o fortalecimento da democracia, não fosse o esvaziamento do discurso da oposição.

Nos últimos anos, Campina Grande se ressente da oposição eficiente que denunciava de forma menos sistemática e mais eficiente, os grupos sóciopolíticos que exerciam autoridade. As denúncias que vêm surgindo no cenário nacional e local são quase todas inconsistentes.

Neste momento, a instalação de uma comissão processante na Câmara de Vereadores de Campina Grande tem motivação claramente eleitoreira. A decisão de afastar o prefeito Veneziano Vital do Rego – da forma como foi tomada – fere o regimento do legislativo e soa como uma piada sem graça.

As denúncias de improbidade administrativa na Prefeitura de Campina Grande devem ser analisadas de maneira equilibrada. Agindo de maneira precipitada, a legislatura com maioria oposicionista que derrubou a lei do orçamento municipal, dará a impressão de estar tentando produzir cortinas de fumaça para encobrir episódios do grupo político ao qual pertence.

segunda-feira, maio 05, 2008

Caiu na rede é peixe!


O título deste comentário possui sentido duplo. O primeiro evoca a estereótipo do “macho nordestino”, aquele homem socialmente monogâmico, mas que nos bastidores trai a esposa, estimulado e perdoado pela cultura machista. Segundo a “tradição” este macho não pode deixar escapar nenhuma mulher que estiver “dando sopa”, daí a expressão “caiu na rede é peixe”.

O outro sentido tem a ver com os tempos atuais, com o império da cybercultura, da invasão de privacidade que alcança todas as esferas sociais, uma metáfora da Internet que faz da rede uma armadilha para peixes de todos os tamanhos e com maior ressonância, para os graúdos.

Explicados os sentidos, partimos para uma leitura do mais novo escândalo da “vida privada” estadual do momento – a divulgação de vídeo divulgado no YouTube no qual o governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima aparece numa pagodeira tocando percussão e beijando uma garota.

Excetuando-se qualquer juízo de valor ou avaliação do impacto do vídeo na esfera familiar e política, o que deve ser questionado é o poder de fogo das novas tecnologias na ruptura de máscaras, antes tiradas e restritas apenas aos circuitos fechados. Com a Internet e a mistura do espaço público com o privado, discursos que apregoam a ética e a moral são rapidamente desmontados, expondo a fragilidade e a hipocrisia humana de maneira voraz.

Fragilidade que faz com que um chefe de estado exponha-se desnecessariamente em recortes particulares que não o diminuem como gestor administrativo, mas atingem uma imagem ideal das mais fortes para qualquer político – a da família.

Para se ter uma idéia da importância dada à manutenção dos valores familiares, em Nova Iorque, um escândalo extraconjugal derrubou o governador – os americanos são pateticamente conservadores. No Brasil, para sorte dos amantes descuidados, prevalece a máxima de que não existe pecado do lado de baixo do equador e quem não tenha pecados que atire a primeira pedra.

Não custa lembrar, entretanto, que mesmo assim, os comentários são inevitáveis, afinal somos um país “oficialmente” monogâmico e os cidadãos, anônimos ou famosos são livres para optar entre casar ou não. No primeiro caso não deixam de motivar a curiosidade e a crítica quando agem como solteiros ou se deixam beijar por eleitoras afoitas.

Para casos como estes, em que a pessoa é exposta em uma situação socialmente reprovável ou é vítima de um mal-entendido, a Internet não dará trégua.

domingo, maio 04, 2008

O tiro pela culatra

É engraçado como as autoridades continuam inaptas para conviver e dialogar com as diferenças, sacrificando o debate e colocando apenas mais lenha na fogueira em torno de questões polêmicas como no da descriminalização da maconha.

Na maioria dos estados, a exemplo do que ocorreu na Paraíba, o Ministério Público entrou com ação para impedir a Marcha da Maconha. O evento previsto para acontecer ontem em João Pessoa certamente não teria recebido tantos holofotes caso fosse realizado da forma como estava programada inicialmente.

Mas em nome da “moral e dos bons costumes”, as proibições legais acabaram despertando na população reações que foram do revanchismo à curiosidade; mas não passaram por discussões sérias. Com o intuito de evitar o que talvez se restringisse a um passeiozinho pela orla – afinal nem todo mundo que usa a droga tem coragem ou necessidade para fazer declarações públicas – virou a Marcha da Democracia.

E quem será capaz de proibir, bramir ou se posicionar contrário a um movimento pela democracia, ainda que mobilizado pelos defensores da legalização da cannabis sativa?

Ninguém. Porque quem reagiu foi na verdade, indiretamente responsável pela mudança de nome da marcha (mas não do seu objetivo) garantindo sua realização, e em segundo lugar porque se assim o fizessem, teríamos a retomada explícita de práticas ditatoriais, e uma manifestação pacífica que contou com pouco mais de 100 pessoas, poderia ganhar adesão comparável à histórica Passeata dos Cem Mil

A estética do descaso


As favelas sempre estiveram relacionadas com o êxodo rural e o planejamento inadequado dos grandes centros urbanos. Mais recentemente, entretanto, elas passaram a fazer parte da paisagem urbana das cidades do interior paraibano. Por falta de uma política nacional de habitação, as pessoas moram onde podem e assim nascem as favelas, crescendo à proporção que cresce a população.

De acordo com o IBGE, a expansão das favelas rumo ao interior coincide com o crescimento populacional dos municípios de médio porte. Se considerarmos que a maior parte destes municípios não têm política habitacional, a perspectiva é de um crescimento em progressão aritmética.

Em Campina Grande – os migrantes oriundos das cidades circunvizinhas ainda são um desafio para os gestores públicos. Sem emprego e nem moradia, muitos acabam integrando o bloco dos sem-teto.

Para evitar que a favelização saia do controle, os prefeitos do interior precisam investir em projetos de habitação popular e na urbanização de áreas recém-ocupadas.

Não se pode admitir que cidades com população inferior a 20 mil habitantes exibam o que de forma preconceituosa se conceitua por aí como a estética da miséria, mas que muito mais apropriado seria chamarmos de estética do descaso.

A menina que parou o Brasil e a sociedade do espetáculo

O prédio de onde a pequena Isabella Nardoni foi jogada já se tornou uma espécie de ponto turístico, onde transeuntes incógnitos fazem fotografias do local. E não são profissionais da imprensa! Curiosidade mórbida?

O que no início parecia apenas mais um caso policial com ingredientes trágicos suficientes para alguns dias de grande exposição midiática e de comoção pública, virou uma novela de longos e repetitivos capítulos à semelhança de um espetáculo.

Talvez o “espetáculo” de que fala Guy Debord em seu livro A Sociedade do Espetáculo -lançado na França em 1967, e hoje clássico em muitos países. Em uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real, as pessoas precisam olhar para outros que vivem em seu lugar.

É como se no espetáculo passássemos da degradação do “ser/ter” para o reinado soberano do “ser/aparecer” e nesta relação, a visibilidade dada a determinados acontecimentos, ainda que trágicos quebra o cotidiano e a trivialidade.

Muito além dos debates sobre os autores do crime, sobre a os pré-julgamentos, evidências, o medo de impunidade e outros aspectos que envolvem o caso Isabella, está o questionamento sobre a própria existência dos consumidores deste espetáculo.

De uma novela escrita sem final feliz, mas que só terá um final com a punição dos culpados, desfecho que deveria ser esperado e cobrado para todo enredo semelhante da vida real., mas que acaba sendo relegado ao esquecimento.

Sem a devida visibilidade, centenas de Isabellas no Brasil, deixadas de fora do reality show da sociedade do espetáculo, do reinado da existência condicionada à aparição deixam de ser, tornam-se estatísticas recitadas pela mesma coletividade, em alguns momentos tão sensível e solidária às tragédias humanas.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Menino-morcego: Out-door móvel do descaso

Sinto um misto de vergonha, pena, raiva e impotência quando vejo garotos morcegando nos ônibus da cidade. Ontem pela manhã vi duas cenas em horários diferentes que me remeterem a estes sentimentos.

Primeiro, logo de manhãzinha, três garotos entre 6 e 8 anos, não mais que isso, sentados na calçada da Secretaria de Finanças esperavam o sinal sonoro para pegarem carona num ônibus.

Dois deles, esconderam-se debaixo do veículo em algum vão que devem conhecer bem e o outro dependurou-se detrás, equilibrando-se de modo precário.
Cheiravam cola e às 08h00 em pleno centro da cidade.

Quando voltava para casa, na hora do rush, um coletivo apressado subia a avenida Floriano Peixoto com outro garoto agarrado na lataria do ônibus, assemelhando-se a um morcego.

As cenas me fizeram lembrar que na época em que eu era criança não existiam tantos "morcegos" assim e os que se aventuravam nesta escalada mortal geralmente eram maiores de 12 anos.

Vejo que esta pecocidade degradante parece querer nos chamar a atenção e dar um recado que muitos ainda preferem empurrar para debaixo do tapete, afinal os filhos da classe média não morcegam.

Mas o que haverá por trás disso, dessa falta de noção do perigo, no que os familiares destas crianças erraram, no que nós erramos em observar impotentes este espetáculo caótico?

São crianças, ainda. Cruéis, violentas, abandonadas, rebeldes, mas crianças!

E o que podemos fazer para resgatá-los?

O que dizer para um menino-morcego para tentar diassuadi-lo de suas acrobacias mortais? A maioria morcega por prazer e não para de se deslocar.

Todas as vezes que vejo algum menino morcegando fico pensando no que dizer, no que fazer e como sempre, não digo nada, não faço nada.

Será que se chegasse em tom maternal pedindo para não fazer aquilo pelo seu bem, se falasse em nome de Deus, da beleza da vida e do futuro que tem pela frente adiantaria?

Desisto. Que menino-morcego compreende o sentido de palavras como beleza, "Deus" ou "futuro"? Suas feridas são crassas e nenhuma palavra consegue tocá-los.

E se optasse por um tratamento de choque? Se puxasse pelas suas orelhas e toda vez que alguém visse um morcego, lhe desse uma surra, daquelas que nossos pais contavam ter apanhado dos seus antepassados?

Inútil. Apesar da linguagem da violência e da pancada ser mais familiar a eles, reprimentadas soam como incentivo.

O que fazer então?

Tentar esquecer e esquecer de fato até a próxima cena, deixar que os meninos-morcegos se proliferem na auto-destruição, assistir impotente a um dos sintomas extremos da desigualdade social?

Os meninos-morcegos são uma espécie de homens-bomba, prontos para explodir. São o resultado da desestruturação familiar, da fome, da promiscuidade, da violência, das drogas, da falta de planejamento familiar, da falta de compromisso das políticas públicas, da corrupção.

quarta-feira, outubro 26, 2005

NOTA MUSICAL

Estava meio descontente com a atuação do ministro da Cultura, Gilberto Gil, mas acharam de lançar um CD do baiano com uma coletânea de sucessos.

Comprei, cuidei de afastar os móveis e depois de dançar e entoar músicas maravilhosas, como Palco, Andar com Fé, Domingo no Parque, entre outras, cheguei a conclusão de que um cara que compõe canções como àquelas está perdoado de qualquer omissão.

É certo que o ministro até poderia usar o cargo para desenvolver projetos e políticas que promovessem as expressões artísticas, sem limitar-se a condecorações e "oba-oba" de solenidades relâmpago, mas de maneira efetiva, lançando mão da criatividade, no caso do problema do seu ministério ser falta de recursos.

Por outro lado, não pode ser classificado como um mau ministro, afinal é um artista e como tal deve sentir uma dificuldade natural em lidar com questões políticas e administrativas.

Definitivamente, Gilberto Gil como ministro é um excelente compositor e cantor.

Mas ouvindo o CD Perfil do Gil, percebo que ele assim como outros artistas brasileiros como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Caetano Veloso – só para citar alguns – podem fazer e dizer o que quiserem, porquê suas obras falam melhor do quê eles.